Cuy e o famoso choque cultural

Cuy. Sim, isso mesmo. C-U-Y. Esse é um dos pratos típicos do Peru, mais especificamente da chamada terra dos incas, região onde se encontra a capital histórica do país, Cusco.

Mas, caso você prefira em português, pode chamar de porquinho-da-Índia. Não, você não leu errado. E, só para constar, já faz muito tempo que o cuy marca presença nas mesas peruanas. Afinal, essa iguaria é uma herança dos incas – no Peru, há até um antigo ditado que diz “crie um [cuy] e coma bem”.

Conheci o cuy andando por Cusco. Esse prato está presente em praticamente todos os cardápios dos restaurantes que permeiam a Plaza de Armas. E apesar de ter visto o nome cuy diversas vezes durante as andanças, só descobri o que de fato era no meu terceiro dia na cidade – na rua do chamado Muro Inca, parei em uma vitrine e fiquei observando o que parecia ser um frango depenado até que o guia matou minha curiosidade e explicou que a carne ali era de cuy, o porquinho-da-Índia dos brasileiros.

Naquela ocasião, o guia também explicou que, no Peru, o porquinho-da-Índia nunca foi visto como bicho de estimação (ou mascote), como acontece no Brasil. Aliás, muitas pessoas, principalmente em áreas mais rurais, têm em suas casas um cantinho onde criam os cuys para consumo próprio – e aqui vale dizer que esses bichinhos se reproduzem como coelhos; e, por isso, os canteirinhos costumam estar sempre cheios.

Casa dos andes
Casa típica na área rural de Puno. Foto: arquivo pessoal

Mas apesar do cuy não ser pet para os peruanos, é mais difícil de encontrá-lo nos maiores centros urbanos, como Lima e Arequipa, onde o melhor é apostar nas áreas turísticas se você quiser provar o cuy. Isso porque, como o guia cusquenho explicou, nas cidades grandes essa fonte de proteína é consumida em ocasiões especiais e festas.

Como falei lá no início deste texto, na região andina, onde as pessoas carregam mais tradições, têm raízes fortes e a cultura é bastante influenciada pelo povo inca, o cuy é uma refeição corriqueira.

Na mesa

Foi num restaurante em Arequipa, próximo ao Monasterio de Santa Catalina, que vi, pela primeira vez, o cuy na mesa, pronto para a ingestão. O cheiro, assim como o gosto e o aspecto dependendo do caso, é de frango. E apesar de grandinho, o cuy que provei possuía mais gordura do que carne.

O nome do prato que experimentei era Cuy Tradicional e, provavelmente, por ser tradicional, a iguaria veio inteira, com bracinhos e perninhas. Mas vale dizer que há vários tipos diferentes de pratos com o cuy, podendo variar a forma como ele é servido, o tempero e acompanhamentos.

Choque cultural

Confesso que, naquela época, eu mal conhecia o veganismo ou vegetarianismo, ainda assim, foi muito estranho ver um prato cujo elemento principal era um porquinho-da-Índia. Provavelmente, assim como eu, a maioria das pessoas não tem o costume de ver um prato feito com um bichinho que é considerado de estimação em muitos países.

O grande problema em torno do cuy é que, para muitos turistas, pode ser difícil de compreender a longa tradição e cultura que está por trás do prato. Pelo fato de irmos até um petshop e vermos esses animais à venda, como bicho de estimação, o processo de aceitar os costumes alheios torna-se complicado.

Mas, no Peru, o cuy é criado com a mesma finalidade que galinhas, gado e porcos no Brasil, para consumo humano.

E, para os peruanos, o emprego desse animal na cozinha faz parte de algo muito antigo que, para além da tradição, representa um verdadeiro meio de sobrevivência.

O cuy é um animal típico dos Andes, área montanhosa, portanto alta, e com temperaturas mais geladas. Por ser um bicho em abundância na região, sempre foi fácil para os povos andinos caçarem e criarem o cuy. E, o mais importante, a iguaria sempre representou uma rica fonte de proteínas para as pessoas que a ingerem. Hoje em dia, muitas das famílias que vivem onde o cuy costuma ser criado para consumo são pobres e não têm boas condições de vida.

O emprego do cuy na culinária peruana é um daqueles assuntos difíceis de discutir, pois envolve muito mais do que “comer um bicho de estimação”. Envolve cultura e é muito complicado alguém de fora compreender as tradições antigas de um povo.

Porém, caso tenha a oportunidade – e se for tranquilo ou tranquila quanto à origem dos alimentos e goste de conhecer a fundo a a cultura do país que está visitando-, não deixe de experimentar o cuy.

Ah! Os peruanos acham graça de nós, que possuímos o cuy, ou porquinho-da-Índia, como animal de estimação. E eles dão risada sem dó desse fato. 😉

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