Notas sobre o meu primeiro liveaboard, em Abrolhos

Há algum tempo, uma das minhas metas anuais é observar as jubartes durante seu período de migração e passagem pelas águas brasileiras. Via de regra, é possível fazer isso em Ilhabela, no litoral do meu estado. Mas no início de 2024, surgiu a oportunidade de vê-las em seu berçário, o “point” delas em nosso país, e eu pensei: “por que não˜?”. Então em setembro embarquei para Abrolhos, no sul da Bahia, para observar baleias-jubarte (Megaptera novaeangliae) e também vivenciar o meu primeiro liveaboard.

Se você não está familiarizado com esse termo, “liveaboard” é a experiência de ficar hospedado em um barco por alguns dias e algumas noites. Esse tipo de viagem é muito comum no mundo do mergulho e das expedições naturais.

Foram 4 dias e 3 noites a bordo de um veleiro catamarã, o Horizonte Aberto, no arquipélago, que faz parte do primeiro parque nacional marinho do Brasil: o Parque Nacional Marinho dos Abrolhos.

Percebi que Abrolhos é um destino bem conhecido entre mergulhadores e amantes da vida selvagem, mas quando furei minha “bolha”, notei que nem todo mundo está familiarizado com a região, o que é uma pena e um reflexo de como a maioria de nós sabe muito pouco sobre o Brasil. :/

Além de ser o nosso primeiro Parque Nacional Marinho, Abrolhos concentra o maior complexo de corais no Atlântico Sul – com algumas espécies e formações endêmicas (ou seja, que só ocorrem por lá), como o coral-cérebro (Mussismilia braziliensis) e os chapeirões.

Durante a viagem, escrevi um pequeno diário nas minhas notas do celular. Anotações rápidas e práticas sobre o ponto alto de cada dia ou algum pensamento interessante. Para não perdê-las (e, de repente, inspirar você), decidi “gravá-las” aqui neste espaço. Fique à vontade! 🐋

24 de setembro de 2024

Muitas baleias durante a travessia. Chegada em Abrolhos.

Primeiro mergulho da viagem no fim da tarde. Não foi muito bom, não registrei no meu loogbook. Lastro: 4 kg; roupa: 2mm. Dificuldade em afundar. Temperatura: 26ºC. Visibilidade: 8m. Duas tartarugas enormes, acho que eram cabeçudas, mas não consegui identificar com certeza. Não consegui me manter no fundo.

Snorkel noturno: tartarugas, RAIA CHITA, tubarão limão e baiacu (gigante).

Nossos vizinhos na ancoragem na ilha de Santa Bárbara. Foto: arquivo pessoal.

25 de setembro de 2024

Baleiamos de manhã – e vimos quatro jubartes (mãe, filhote e dois escortes).

Embaixo da água, “no cilindro”, vi chita duas vezes (provavelmente o mesmo indivíduo). Muito coral cérebro e vi um coral fogo também (!). Mergulho na ilha Siriba.

Fim de tarde. Descemos na ilha Siriba e andamos em meio aos atobás – os filhotes são fofos, vimos um sendo alimentado pela mãe. As fêmea fazem som de pato e os machos emitem um assovio. As fragatas atacam os atobás para roubar comida.

Vimos adulto e filhote tentando se alimentar. Uma fragata rondava a dupla para tentar roubar a comida (diretamente da boca do adulto!).

Mergulho noturno: muita vida. Tartarugas enormes, e muitas. Parecia um mundo alienígena. Vi peixes enormes e moreias fora da toca.

Filhote de atobá-mascarado durante a nossa visita à Siriba; ao fundo, a ilha Redonda. Foto: arquivo pessoal.

26 de setembro de 2024

Deixamos a ancoragem em Santa Bárbara cedo.

Mergulho 1: 210 bar – 90 bar; temperatura média: 26ºC; profundidade média: 17 metros. Naufrágio Santa Catarina (1914), afundado pelo Cruzador Glasgow. Vi coral fogo e muita vida. Donzelinhas e peixes grandes que não consegui identificar. Balas e látex no navio. Mantive uma boa flutuabilidade. Difícil cair na água e voltar para o barco, mar muito batido. Fiquei com medo de perder a GoPro.

Almoçamos ancorados em Santa Bárbara e, à tarde, ficamos por lá. A Marinha autorizou nosso desembarque na ilha. Praia cheia de vidro marinho (que nada mais é do que o vidro “polido” pelo sal e areia. Não foi permitido filmar e tirar muitas fotos por pertencer à Marinha, mas andamos pelas casinhas e conhecemos toda a estrutura. Haviam muitos ninhos de atobás.

Vimos o pôr do sol do alto do farol. Que cores! A Carol que o acendeu. Foi lindo. Do alto do farol foi possível ver uma jubarte saltando.

Alguns pedaços de vidro marinho que coletei no desembarque em Santa Bárbara. Foto: arquivo pessoal.

27 de setembro de 2024

Mágico.

Atravessamos as ilhas (ou seria o arquipélago?) a nado. De Santa Bárbara até Siriba, fizemos um L e passamos pela Redonda (o equivalente a 1 e 2km). Nem acredito que consegui fazer isso hahaha. Vi raia prego (ou manteiga) e tinha também um tuba por lá (o lixa)…. Muuuuuitos peixes lindos, corais e esponjas do mar. Vi uma barracuda, assustadora (e brilhante).

Chegando no barco (ancorado em Siriba), um monte de tartarugas (acho que eram verde) se alimentando no fundo. Consegui descer em apneia perto de uma, nadei ao lado dela e tentei fazer uma selfie com a GoPro. Ela se afastou e, quando olhei para o lado, tinha outra. Depois, eu e a May fomos procurar as chitas, que estavam rondando o barco. Mas não as achamos. Ainda assim, vimos mais tartarugas. Quero fazer um curso de apneia.

Mergulho livre com tartarugas depois de atravessarmos o arquipélago em L. Vídeo: arquivo pessoal (GoPro Hero 13).

02 de outubro de 2024 (depois da viagem)

Voltei da viagem com um sentimento de preenchimento. Não achei que seria assim. Fui com a expectativa muito alta para ver baleias, mas, com o passar dos dias, isso deixou de ser importante ou o foco principal.

Me senti acolhida pelas pessoas e muito feliz por me conectar e ficar à vontade com gente que nunca nem tinha visto na vida. A parte mais legal era compartilhar aquelas experiências com elas no fim do dia.

Também me senti muito pequena dentro desse mundo. Em Abrolhos, senti que algumas coisas não são tão importantes assim, também senti que me superei a cada dia.

No primeiro dia, na ida, jamais esperei que veria uma baleia batendo a cauda sem parar (batida caudal). E mais do que isso, lembro de olhar para o lado, à esquerda (bombordo), e ver uma gigante saltando três vezes para frente (foram cinco saltos no total, mas consegui ver apenas três deles). Aquela baleia enorme saia da água com a maior naturalidade, o corpo todo para fora, preto no horizonte.

Foi mágico ver a raia chita à noite, à luz das lanternas, ela nadou com calma em meio ao nosso grupo eufórico. Consegui ver todas as manchinhas dela. Com a luz na água, ela pareceu meio marrom/ esverdeada. No dia seguinte, também vi outra chita, no mergulho de cilindro, ela passou em cima dos corais, longe. Na volta, a vimos novamente, ao fundo, parecia que estava voando. Imagens que vão ficar guardadas pra sempre.

No dia que mergulhamos no Chapeirãozinho, depois do mergulho, enquanto esperávamos o barco, um grupo de atobás marrons nos fez companhia, quase pousando sobre nossas cabeças. Quando olhava pra cima, conseguia ver a barriga deles, a face, o bico, tudo, com perfeição. Sem medo, pousavam do nosso lado, como se também estivessem esperando o barco chegar.

No último dia, me senti corajosa de topar a travessia em L entre as ilhas (de Santa Bárbara até a Siriba). O final valeu a pena pois fomos recompensados por um grupo de tartarugas se alimentando no fundo. Me desafiei, prendi a respiração e fiz minhas primeiras tentativas de mergulho livre (entre 6m e 7m, talvez). Nadei ao lado delas, vi as rugas de seus rostros, o desenho do casco, foi incrível o fato delas deixarem eu chegar tão pertinho assim.

Se você quer saber mais sobre essa viagem, compartilhei tudinho no meu Instagram. 📸

Leia outros conteúdos sobre Abrolhos no A Gi Viaja! 🏝️

Capa:

Ilha Sueste vista de Santa Bárbara durante o fim de tarde. Foto: arquivo pessoal

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Uma tempestade de areia em Paracas, no Peru, em 2014, fez com que batesse a vontade de criar um blog para compartilhar algumas aventuras e, claro, as famigeradas dicas de viagem! Seja muito bem-vinda ou muito bem-vindo ao meu espaço. [em pausa por tempo indeterminado]

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